Perda – Parte I

Vejo no reflexo do espelho o resto que você deixou de mim, olhos inchados, cabelos desarrumados e um aspecto de filmes de Tim Burton, tudo isso se torna ainda pior em um rosto comum (para não dizer feio), de formato quadrado e com olhos pequenos, fora do padrão de beleza atual.

Entro no banho em uma tentativa de tirar você de mim, da minha pele, da minha alma. Esfrego até começar a arder, pois a dor física é melhor do que a dor da perda. Vejo você esvaecendo pelo ralo e da mesma forma voltando com a água do chuveiro.

Visto aquela blusa azul marinho que no outro dia você havia dito que caia bem em mim, visto com aquela esperança boba que eu poça tropeçar com você na ida do trabalho e quem sabe você possa me convidar para um café no inicio da tarde  ou então me esperar no final do  expediente.

Entro no carro e ligo o som no volume máximo, fecho as janelas que por sorte tem película. Pelo retrovisor posso ver as pessoas levantando os braços e gesticulando algo que por sorte não posso ouvir, pois o som da música do Learn to fly do foo fighters consome o carro e inibe os sons lá fora e o principal meus pensamentos.

Enfim estaciono o carro na mesma vaga de sempre, olho no espelho retoco meu batom e forço o sorriso mais convincente possível, pois já não aguento ouvir sermões que tudo isso vai acabar bem.

Nessas horas aquele papo todo do tipo “você tem que se amar primeiro lugar”, “logo logo você vai conhecer um cara legal” e todos os sermões que você lê em livros de auto ajuda, definitivamente não funciona. Talvez funcione para quem ta do outro lado, para aquele que narra a história ou apenas a observa. Mas quando você está ali exposta só é visto o que está por fora, agora àquela cicatriz ali, aquele hematoma e aquele vazio, só você sente, mais ninguém.

Inicio um relatório, e abro o e-mail, termino o relatório, e olho para o celular, reviso o relatório e me vejo abrindo a sua foto salva em meu computador, e assim continua o dia em um processo vicioso.

No final da tarde a minha esperança se vai com o passar das horas, se aproxima das 19 e nenhuma ligação, nenhum sms e e-mail,desligo o computador pego a jaqueta da cadeira e saiu pela porta, essa hora é a pior do dia, o sentimento de desespero me consome, pois sei que o que me aguarda é um apartamento frio e vazio, uma TV ligada em noticiário, e uma cama cheia de papeis de chocolate, garrafas de cerveja e chepas cigarros.

Tento reunir minhas forças em uma tentativa frustrada de concertar tudo isso, como é que cheguei a esse ponto? Quando é que foi que me expus desse jeito a você?

Tenho em minhas malas valores que até pouco tempo atrás era tudo que precisava, sempre soube o que queria e aonde queria chegar, pelo menos até agora.

Desvio o carro do caminho de casa , tudo que menos preciso agora é um apartamento vazio, aproveitei um pouco desse sentimento bom que me consumia e aumentei o volume do carro e dirigi para o litoral, a noite estava linda lá fora ao som de  Kiss me , um calor gostoso de sentir na pele, baixei totalmente o vidro e respirei o maximo de ar que podia encher nos pulmões.

E num descuido deixei por um estante olhar para o banco do passageiro, e vi de fato sua imagem ali, seu cabelo castanho bagunçado, seu olhar de preocupação junto com seu mais perfeito sorriso torto.

E tudo se foi de vez, junto com sua imagem, parei o carro no acostamento e coloquei a cabeça no volante, fazia exatamente 2 semanas em que você se foi , lágrimas começaram a brotar e eu não podia fazer nada a não ser deixa-las sair.